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Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul foi atingido pelo maior desastre climático de sua história recente, com efeitos profundos sobre a vida social, a infraestrutura pública e a continuidade das atividades escolares. No campo educacional, a destruição de escolas, a suspensão de aulas, o deslocamento de famílias e a desorganização dos calendários letivos produziram um choque exógeno de grande magnitude, cujos efeitos sobre a aprendizagem ainda demandam investigação sistemática. Esse evento ocorreu, ademais, em um contexto já marcado pelos impactos anteriores da pandemia de Covid-19, que havia comprometido o tempo de exposição ao ensino, a regularidade da escolarização e a consolidação de aprendizagens fundamentais.

No caso da alfabetização, a sucessão desses choques impõe um problema analítico específico. Não se trata apenas de verificar se houve queda nos indicadores de desempenho, mas de compreender como eventos disruptivos sucessivos afetam diferentes dimensões da aprendizagem em uma etapa decisiva da trajetória escolar. A alfabetização ocupa posição estruturante no percurso educacional porque constitui a base sobre a qual se desenvolvem competências posteriores de leitura, escrita, compreensão e participação nas práticas escolares. Por essa razão, perdas ocorridas nos anos iniciais tendem a produzir efeitos cumulativos sobre o desempenho futuro, ampliando desigualdades e comprometendo a progressão educacional dos estudantes.

Este texto parte, portanto, de um enquadramento analítico que articula três dimensões interdependentes. A primeira diz respeito à heterogeneidade dos impactos sobre as diferentes habilidades que compõem a alfabetização, com especial sensibilidade das competências de maior complexidade cognitiva — como compreensão textual e produção escrita — a interrupções no processo educativo. A segunda refere-se à mediação desses impactos pelo nível socioeconômico, compreendido não apenas como variável de controle, mas como fator estrutural que condiciona tanto o nível inicial de aprendizagem quanto a capacidade de resiliência e recuperação em contextos adversos. A terceira dimensão diz respeito à forma como choques exógenos interagem com desigualdades preexistentes, produzindo um efeito de amplificação — e não apenas de reprodução — das disparidades educacionais. 

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